sexta-feira, 17 de agosto de 2012

POR AÍ




Por aí
(Carlos Pedala)

Feito sempre, acordo cedo.
Abro as janelas da vida e desço
para as bicicletas. Essas felizes despertam.
Adentro as ciclovias, as ciclorrotas, as ciclofaixas.

Pedalo... Pedalo...
Paro.

A alegria das cores dos barcos estacionados
na enseada de Botafogo contamina os ares.

Pedalo... Pedalo...
Paro.

Atravesso túneis
Ultrapasso mendigos e sujos lugares.

Logo, as ondas quebram ao meu lado.
Logo, pedalo... Paro e deslizo junto às nuvens,
na impossível busca do eterno. 

PEDRAS PORTUGUESAS




Pedras Portuguesas
(Carlos Pedala)

Andar de bicicleta é tão simples,
é tão fácil, é só ficar no equilíbrio.
Já em existir há um quê de esquisito,
só existo se sei que existo.

Se inexisto,
jamais saberei desse fato,
jamais tomarei conhecimento disto.

Ao passar, reparo o calceteiro a colocar
pedras portuguesas, uma a uma, lado a lado.
Para elas inexistir nada significa
nem para mim, tal fato.

As rodas rodam em cima delas (das pedras)
e retornam à ciclovia, em frente ao Hotel Fasano.
Antes, me abaixo para não tocar as folhas dos coqueiros que espetam os distraídos. 

POESIA




Poesia
(Carlos Pedala)

Passear de bicicleta
Observando a poesia que se apresenta
vendo o encanto das coisas

que passam

Sentir os pulmões trocarem gases e oxigênio
Sem saber das notícias
Cortar palavras
Soletrando letras

Admirar o rastro claro da lancha
ondas brancas
de hélices na Baía de Guanabara
feito as paralelas na estratosfera de aviões a jato

Sentir o impacto na rocha do mar revolto
ecoar dentro do peito
e aguardar o desfecho perfeito
para um poema torto 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

ZONA SUL




Zona Sul
(Carlos Pedala)

Há nuvens no horizonte.
Repito: nuvens, para não haver dúvidas.
Estamos na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Surfistas deslizam nas ondas.
As pedras do Arpoador se admiram
das turistas quase nuas pelo calçadão.

Nas ciclovias, as bicicletas ligeiras transitam por
universos circundantes. O cheiro da maresia se
mistura ao aroma da gasolina e do óleo diesel.

O playboy reclama seu direito de ouvir
apenas o barulho dos automóveis. O Dois Irmãos
se enche de Vidigal. O roçar do mar na areia
é vai e vem de poesia, de dia a dia. Do ônibus lotado corpos descem sem perceberem nada.O homem alado pousa na praia e não há espanto. 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

ROTINAS





Rotinas
(Carlos Pedala)

O barulho vem de fora e deduzo
as horas. Logo é dia, logo, momento
de despertar. Retomar a rotina do dia a dia,
enfrentar a pequena dor no braço, um mal
jeito. É hora de aprontar as bicicletas.

Primeiro, preciso de alimentos,
leio alguns poemas antigos.
É um compêndio ou algo parecido.
São “Cem poemas essências,” segundo
Carlos Figueiredo. Embora, veja
tantas ausências. Sei (Gullar me ensinou)
que a palavra não tem cheiro.

Ora, mas tudo tem dois lados. A grande,
a maior vantagem é que nenhum poema fede.
Assim, antes de pedalar, vou ao banheiro. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

PELA MANHÃ




Pela manhã
(Carlos Pedala)

Desperto ligeiro de sono profundo.
Acordado sonho, feito Fernando
Pessoa sonhara em conquistar o mundo
e nem levantei da cama.

Na janela, a lua de ontem e de anteontem.
Escovo os dentes como Presidente.
Lamento apenas não ter pensado nisso antes.

Organizo exército de bicicletas e alto-falantes.
Arregimento poetas,
e cavalheiros andantes.

Levanto fundos e faço empréstimos a perder de vista.
Tudo é tão certo.
Tudo é tão claro.

Pássaros cantam lá fora, pessoas passam correndo,
Respiro fundo, respiro aurora e monóxido de carbono. 

domingo, 12 de agosto de 2012

FENOMENOLOGIA DE BICICLETAS




Fenomenologia de bicicletas
(Carlos Pedala)

Escrever é tarefa fácil, posto sem esforço.
Tal qual andar de bicicleta.
Talvez mesmo sem remédio.
As palavras imanam
feito formigas brotando de dentro da
terra. Seguem em fila.

Já bater o martelo cansa,
catar feijão,
esculpir diamantes. Temáticas livres,
Versos soltos: sem rimas e sem métricas.

Arrumar paradoxos. Escolher quebras de sentido.
É o poema pronto para ser lido.
Quem sabe algo se esclareça?
Tudo é possível na interseção imagética do sujeito
e do objeto.  É ali onde há palavra nua.