sexta-feira, 7 de junho de 2013

HÁ TANTO TEMPO

Há tanto tempo
(Carlos Pedala)

Eles se conhecem há bastante tempo

São servidores públicos e trabalham juntos
O serviço público é sempre a coisa de sempre
Nessa tarde, saem ao mesmo tempo juntos
Uns a esperar, a apressar e atrasar os outros

Eles se conhecem há muitíssimos tempos
Pegam um táxi na Rua Buenos Aires
Estão na hora do rush, sufoco
O trânsito fica bem engarrafado

Eles se conhecem há tantos e tantos tempos
Viram os filhos uns dos outros crescerem
Viram através das fotografias
Após o expediente se falam no Facebook

Eles se conhecem há muitos e muitos tempos
Souberam do falecimento dos pais uns dos outros
Viram casamentos se acabarem em casamentos
E tudo isso se deu de modo bem discreto

Eles se conhecem há tanto tempo
No elevador sempre se espantam
Dizem como o tempo passa rápido
E tudo parece haver acontecido ontem...


PERCEBIDO

Percebido
(Carlos Pedala)

A vida não é uma coisa certa
Nunca foi exatamente isso
No Rio de Janeiro, em junho
Os dias têm céu de azul preciso

Andando meio distraído
Você irá escutar alguém dizer
- Que dia lindo! Olha o céu!
Estava lá sempre percebido...

quinta-feira, 6 de junho de 2013

SAARA

Saara
(Carlos Pedala)

São todas as cores a cobrir os lados
Tudo é colorido
Tudo quer ser exposto
Tudo é querer e aparecer
Ser e aparecer são único conceito

São tudo coisas do comércio
Vêm de outros tempos
Sempre expostos aos riscos
Do negócio
Prontos para conceder descontos

Rua da Alfandega ou Senhor do Passos
A fé na Igreja de São Jorge
A fé é o maior movimento
Viver sem hesitar
E ser posto ao secular comércio... 

ESPECULAÇÕES EM TORNO DE DRUMMOND

Especulações em torno de Drummond
(Marcus Vinícius Quiroga)


Onde Drummond?
Por onde vaga divagando?
Ou o que desta vez nos indaga,
entre coisas e palavras?

O legado de seus poemas
se encontra sem inventário,
à mercê das leituras.
Entrega-se a mãos
que exercem ofícios,
impróprios para fugas.

De onde Drummond extrai
tanta substância
para o seu pensar?
De que Minas metafísica -
a única que ainda há -
e suas águas subterrâneas,
recolhe as pedras
sujas do barro humano?

Os seus bens não cabem
em canastras, não descansam no chão
das plataformas de trem.
O poema não é refém de caixas,
cofres e assinaturas,
feito que é de uma espécie de nuvem.

Aonde Drummond vai,
quando se levanta da forma
de estátua em Copacabana?

Logo ele, tão arredio
a este contato de fãs e fotografias,
cedo se cansa e se esconde
numa onda desatenta,
e poucos veem que é Drummond
quem ali vai, mineiro no mar.

O que sonda Drummond
com tanta pergunta,
tanta especulação?
Que mania de inquirir,
de querer ir a fundo!
A superfície não basta,
mas outros mundos mais vastos
se espalham sobre sua escrivaninha.
E Drummond cifra-decifra-cifra
segredos da língua,
ou passeia por labirintos
e retorna à página
com sortimento de signos
e minerais sentidos.

Onde Drummond?
Onde sua sombra o projeta?
Detrás de quais óculos?
De qual semblante sério?
Em que pensa agora
que tem tanto tempo?
Decerto nas coisas findas
que são as que ainda e sempre
permanecem eco?
Onde Drummond
assina o ponto,
como se não fosse poeta?
Mas, exemplar funcionário,
seleciona textos para pastas:
um livro póstumo.
Ele se despede,
se disfarça em concha,
tão longe de Minas.
Mas carrega leve
preciosos minérios
em outros cadernos.

Onde Drummond
faz de conta de que não é eterno?


quarta-feira, 5 de junho de 2013

CAMPO DE SANTANA

Campo de Santana
(Carlos Pedala)

Estão a passear em Nova York
(Merecidas férias)
Há pouco, bem pouco tempo, marcavam
“em relacionamento sério” no Facebook
Estão livres agora
De fato,
Colecionar fotos de casamento
É meio fora de moda
Hoje andam de mãos dadas em Nova York
Visitam o marco zero
E se impressionam com o tamanho do vazio
Do World Trade Center
Lamentam não terem vindo antes
Ver o Fantasma da Ópera na Broadway

Foram passear em Nova York
Lamentam bastante não terem vindo antes
Medir o verde do Central Park
Com saudades das cotias do Campo de Santana...   

terça-feira, 4 de junho de 2013

FEITO CRIANÇA

Feito criança
(Carlos Pedala)

leio poemas esquisitos
não fazem sentido
são palavras distorcidas
digitadas em sânscrito

leio poemas esquisitos
não tem métrica nem rima
nem nada sendo dito
digitados em hieróglifo

leio poemas esquisitos
brincam com desconhecido
querem aonde o entendimento
não alcança, feito criança...


CÂMARA DE ECOS

Câmara de ecos
(Waly Salomão)


Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequeninho sonho meu.
Na  ciência dos cuidados fui treinado.

Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.