sábado, 8 de junho de 2013

VIDA MANSA

Vida mansa
(Carlos Pedala)


onda veio dar em mim
mar, esperança sem fim
janelas do peito

Não quero olhar nenhum
a me ver desse jeito
sendo eu apenas alegria

Queria estar à toa
Vento, bruma, garoa

Tranquilidade em pessoa
Manhãs, tardes, dia
Comprometido
Unicamente e nada

fama de vagabundo
Deitado na relva macia
Amigo das nuvens do céu
Coisas algumas da vida faria


FLAMA

Flama
(Carlos Pedala)

um poema
é uma coisa
tão pequena
feito apenas
de fonemas

onde tudo
vale a pena
não há
alma pequena
dentro da flama
do poema 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

FELIZ NO FACEBOOK

Feliz no Facebook
(Carlos Pedala)

Ela é feliz no Facebook
Ela posta as fotos na internet
Tem quem a inveje na street
Ela agora está com seu new look

Ela é feliz no Facebook
Todos sabem em que praia
Ela toma sol dentro do shopping
Ela sabe a hora de usar o munck

Ela é feliz no Facebook
Ela tem o valor da aparência
Ouvir música é no jukebox
Ela gosta de dar uns toques

Ela é feliz no Facebook
Todos adoram os seus dotes 
E dão umas catucadas
Compartilham os seus links



Ela é feliz no Facebook 

HÁ TANTO TEMPO

Há tanto tempo
(Carlos Pedala)

Eles se conhecem há bastante tempo

São servidores públicos e trabalham juntos
O serviço público é sempre a coisa de sempre
Nessa tarde, saem ao mesmo tempo juntos
Uns a esperar, a apressar e atrasar os outros

Eles se conhecem há muitíssimos tempos
Pegam um táxi na Rua Buenos Aires
Estão na hora do rush, sufoco
O trânsito fica bem engarrafado

Eles se conhecem há tantos e tantos tempos
Viram os filhos uns dos outros crescerem
Viram através das fotografias
Após o expediente se falam no Facebook

Eles se conhecem há muitos e muitos tempos
Souberam do falecimento dos pais uns dos outros
Viram casamentos se acabarem em casamentos
E tudo isso se deu de modo bem discreto

Eles se conhecem há tanto tempo
No elevador sempre se espantam
Dizem como o tempo passa rápido
E tudo parece haver acontecido ontem...


PERCEBIDO

Percebido
(Carlos Pedala)

A vida não é uma coisa certa
Nunca foi exatamente isso
No Rio de Janeiro, em junho
Os dias têm céu de azul preciso

Andando meio distraído
Você irá escutar alguém dizer
- Que dia lindo! Olha o céu!
Estava lá sempre percebido...

quinta-feira, 6 de junho de 2013

SAARA

Saara
(Carlos Pedala)

São todas as cores a cobrir os lados
Tudo é colorido
Tudo quer ser exposto
Tudo é querer e aparecer
Ser e aparecer são único conceito

São tudo coisas do comércio
Vêm de outros tempos
Sempre expostos aos riscos
Do negócio
Prontos para conceder descontos

Rua da Alfandega ou Senhor do Passos
A fé na Igreja de São Jorge
A fé é o maior movimento
Viver sem hesitar
E ser posto ao secular comércio... 

ESPECULAÇÕES EM TORNO DE DRUMMOND

Especulações em torno de Drummond
(Marcus Vinícius Quiroga)


Onde Drummond?
Por onde vaga divagando?
Ou o que desta vez nos indaga,
entre coisas e palavras?

O legado de seus poemas
se encontra sem inventário,
à mercê das leituras.
Entrega-se a mãos
que exercem ofícios,
impróprios para fugas.

De onde Drummond extrai
tanta substância
para o seu pensar?
De que Minas metafísica -
a única que ainda há -
e suas águas subterrâneas,
recolhe as pedras
sujas do barro humano?

Os seus bens não cabem
em canastras, não descansam no chão
das plataformas de trem.
O poema não é refém de caixas,
cofres e assinaturas,
feito que é de uma espécie de nuvem.

Aonde Drummond vai,
quando se levanta da forma
de estátua em Copacabana?

Logo ele, tão arredio
a este contato de fãs e fotografias,
cedo se cansa e se esconde
numa onda desatenta,
e poucos veem que é Drummond
quem ali vai, mineiro no mar.

O que sonda Drummond
com tanta pergunta,
tanta especulação?
Que mania de inquirir,
de querer ir a fundo!
A superfície não basta,
mas outros mundos mais vastos
se espalham sobre sua escrivaninha.
E Drummond cifra-decifra-cifra
segredos da língua,
ou passeia por labirintos
e retorna à página
com sortimento de signos
e minerais sentidos.

Onde Drummond?
Onde sua sombra o projeta?
Detrás de quais óculos?
De qual semblante sério?
Em que pensa agora
que tem tanto tempo?
Decerto nas coisas findas
que são as que ainda e sempre
permanecem eco?
Onde Drummond
assina o ponto,
como se não fosse poeta?
Mas, exemplar funcionário,
seleciona textos para pastas:
um livro póstumo.
Ele se despede,
se disfarça em concha,
tão longe de Minas.
Mas carrega leve
preciosos minérios
em outros cadernos.

Onde Drummond
faz de conta de que não é eterno?