sexta-feira, 11 de abril de 2014

O grito
(Carlos Pedala)

Escrevo poema assim
cheio de es
onde não há dúvidas
tipo:
eu e você e eu e você e eu e você
indo até o infinito
fácil rima
venha de mim, venha de você, venha bonito
dedos em seus cabelos
dedo em sua boca
e pernas e braços e corpos juntos
um do outro
e se achar que ficou esquisito
é porque você não ouviu
o grito... 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

história de família
(Carlos Pedala)

mamãe, no café da manhã, diz que
seu avô era juiz de toda a região
era muito, muito justo, correto na lei
o chique era ter casa em Paris
isso no tempo de Machado de Assis
fazer compras na rua do Ouvidor
o avô dela era meu bisavô
ele desistiu de ser padre a dois meses
da consagração
quando casou, ganhou duas fazendas,
perdeu uma para o Banco do Brasil,
foi o capataz quem arrematou
o capataz quis por que quis casar
com sua tia Conceição
mas o bisavô, disse: - NÃO
talvez fosse melhor ter deixado
a tia Conceição ficou meio perturbada... 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Aqui por perto
(Carlos Pedala)

não, não sei o porquê das coisas
dos perigos atrás da porta
e, confesso, também tenho medo
dos monstros debaixo da cama
mas vou ficar aqui por perto
de fato, não sei dar as respostas
mas ficarei aqui por perto
não conheço o remédio
nem um bom médico
mas estarei aqui por perto
não poderei repartir essa dor
invocarei os deuses
chamarei todas as forças do universo
e ficaremos aqui por perto
ficarei acordado a noite inteira
para ficar aqui por perto
escutarei as sirenes e os carros na noite
lutarei com o sono
e estarei por aqui... 

terça-feira, 8 de abril de 2014

até o dia amanhecer
(Carlos Pedala) Para Pedro Sena

na madrugada
(quatro e quinze da manhã)
levanto e encontro o filho
insone e aflito
a queima roupa me questiona:
- Pai, por que existo?
Atônito, procuro ouvir as estrelas
- que não vejo –
nada escuto
assim, permanecemos em silêncio
juntos
até o dia amanhecer... 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

outra manhã
(Carlos Pedala) Para José Wilker

só deixou amor
muito amor
nada mais deixou
talvez logo a saudade
e agora José?
onde haverás depois do fim?
outra manhã chegou
e não estavas por aqui
por onde andarás
em que palco brilhará tua estrela
por que nos deixou
sem ouvir os aplausos
bye bye Brasil
bye bye José
e até...


domingo, 6 de abril de 2014

em sendo
(Carlos Pedala)

estou cá num poema
num poema de não-ser
tímido, medroso de ser
em seu ridículo de ser
(como se o não-ser, não o fosse)
poema, por favor, me deixe
seja ridículo, seja lá o que for
seja em seu caminho de só ser
não tenha medo de só ser
seja feio, seja mal escrito
seja muito bem fraquinho
mas saia logo daqui
saiba apenas que você
nunca será sozinho...


sábado, 5 de abril de 2014

Desejo
(Carlos Pedala)

fosse tua fala em mim  
fosse tua pressa em mim
fosse tua cara assim
a boca em tua face
a língua em tua face
que o mundo fosse assim
e que tudo fosse
com a força das coisas que são
fosse voo, fosse breve
fosse vão
sendo o nunca que fosse
parte das coisas que acontecem...