segunda-feira, 20 de maio de 2013

CHEIAS DE SOL


Cheias de sol
(Carlos Pedala)

Você já fez algo sem sentido?
Imagine fazer isso a vida toda.
As paredes e os tetos geralmente
Não deixam a gente ver o nada do dia
Mas alguém deu o alerta
(acho que foi o Frota)

E todos correram para ver o por-do-sol
Por cima dos muros e nas frestas
A Paulinha não conseguia enxergar nada
Ela nem é muito cheia de coisas
Fred sugeriu que virassemos a lixeira
Não, não havia nenhuma revolta
Geralmente, preferimos os eletrodomésticos

Ela ficou maravilhada, eu não vi
E a colega que ficou olhando mais tempo
Disse que estava vendo o sol em todos
os lugares, até no vestido da Paulinha
Estavam completamente cheias de sol...  

VÉU DE NOIVA


Véu de noiva
(Carlos Pedala)
A Nelson Rodrigues


Sustentar o olhar
o céu sustenta o luar
o vento levanta o véu da noiva
vai voar
o véu da noiva
mais esconde
e nem deixar escapar
é tão leve
o que se esconde
o que poderia ser?
Esse quê que se esconde
Esse ser
Quase coisa
e todos ficam de pé
para ver o que se esconde
ser levado ao altar
no olhar 

DUAS POESIAS


Duas poesias
(Carlos Pedala)

Preciso fazer duas poesias
Não uma nem três
Mas duas pra agradar o freguês
Seja hoje à noite, ou em outros dias

Preciso fazer duas poesias
Não, não vou ganhar dinheiro
Não é que eu não queira
Mas não deixa de ser maneiro

Preciso fazer duas poesias
Nem quero rima
Nem quero métrica
Mas com sabor das maresias

Preciso fazer uma poesia
Pois como você bem vê
A outra já saiu praticamente
Pronta, quase sem querer...

domingo, 19 de maio de 2013

FRANGO DE PADARIA


Frango de padaria
(Carlos Pedala)

A gente andava de mãos dadas pela
Praia de Botafogo,
mas a praia estava longe
Evitamos o olhar
Daquele casal em situação de rua
Você há de convir que a situação é constrangedora
Havia o cheiro de frango de padaria
Haviam acabado de jantar
Pensei: passarei duas vezes as chaves na porta
Não sei até agora explicar o pensamento
Ao chegar em casa
Haviam pedido pizza
Não comi
Passei duas vezes as chaves na porta
Não consegui dormir
Assisti ao filme:
“Saturday night fever”
E fiquei com o gosto do frango na boca... 

LABIRINTO


Labirinto
(Carlos Pedala)

Está certo
É só dizer do desconexo momento
Esconder algumas letras
Não fingir,
Não dizer que minto
Para o poema obter forma
Ficar dentro da norma
Do preciso labirinto 

NAVIOS


Navios
(Carlos Pedala)

Lembrei num poema
Como de longe eu via
Dois navios na Baía
Um ia, outro vinha

Quem diria
Num poema
Mal cabem linhas
Mal cabem letras

Então, como dois
Navios
Caberiam? 

ARROZ


Arroz
(Carlos Pedala)

Após o café
Tomado pela alegria da manhã de domingo
E pelo filme do Renato Russo de ontem
Ousei perguntar:
- E se tudo isso for verdadeiramente em vão?
Num lampejo de olhar
A mulher pediu que eu olhasse
O arroz pra não queimar
Enquanto ela iria, ali, no Supermercado Princesa
Comprar alguma coisa pra fazer no almoço
(só poderia ser uma mulher)
Andei pra lá, andei pra cá e pensei
Em passar, embrulhar e guardar palavras
Dentro de carteira dela
De modo a surpreender
E economizar dinheiro
Quando ela a abrisse no caixa
Mas achei melhor esquecer 
E prestar atenção no arroz...