sexta-feira, 12 de abril de 2013

SOBRE NÓS


Sobre nós
(Carlos Pedala)

Andava pela Rua Buenos Aires, no Centro do Rio
Após o almoço, uma típica feijoada de sexta-feira
A forma como o sol incidia sobre nós
É própria do outono
Lembrei-me de outra época
De outro ano
Em outra rua passava
E em outro tempo caminhava
Era mais ou menos essa hora
Vínhamos eu e meu pai
Como quase sempre, a gente não falava nada
Cada um carregava os seus pensamentos
Não dá pra imaginar agora o que ele pensava
Eu apenas me lembro de ter ou haver
Ficado muito impressionado
com a forma da luz do sol
e o modo como ela
se derramava sobre nós.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

SIMPLES ABSURDO


Simples Absurdo
(Carlos Pedala)Para Luciana Peralva

As mesmas palavras
Sempre
E os mesmos carros parados
Mesmo assim, atravesso a Presidente Vargas
No Centro
O mundo tem seus compromissos
O mundo com toda sua pressa
Ando em direção ao metrô, à tarde
Não sinto cheiros nem sinto nada
Reparo na ausência de carros no estacionamento
Mas nem isso me importa
Atravesso a Avenida, afirmo que atravesso
Com passos firmes, com passos largos
Vejo o pivete sentado do outro lado da pista
No meio-fio, com os pés descansos no asfalto
Em meio ao trânsito
Sei das ameaças
E do problema social
Mas confesso
Tive inveja, tive vontade de tirar o sapato
E sentar ali do lado dele
Isolado, reunido, mudo
Em simples absurdo... 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

AULA DA NINFA


Aula da Ninfa
(Carlos Pedala)

Saio dali todo prosa
Como se tivesse o prêmio da loteria
Meu Deus! Mas que bobeira
Achar que se pode viver de poesia

Se bem que na vida
Tudo é questão de estilo
Uns se vestem de azul
Outros se sentem bem com o rosa

Aquele ali cuida das flores
Aquele outro gosta da poda
O mundo inteiro roda em torno
Do modo de fazer dinheiro

E as pessoas ali reunidas
Fazendo da junção das palavras
E do gosto de ouvir e contar histórias
A força pra cruzar avenidas 

terça-feira, 9 de abril de 2013

ALMA E ALEGRIA


Alma e alegria
(Carlos Pedala)

Hoje vou à livraria,
bem no Centro da Cidade.
Folhearei diversos livros,
ali há sabedoria.

Vou comprar um de autoajuda,
olharei os best-sellers,
e os levarei para a mesa,
onde os deixarei esperando por alguém.

Hoje vou à livraria,
roubarei uma poesia,
sorrateiramente, e se tiver sorte.
Vou carregá-la no bolso e soltá-la
na rua, com alma e alegria...

segunda-feira, 8 de abril de 2013

CIMENTO ARMADO


Cimento armado
(Carlos Pedala)

Tendo em vista os afazeres,
decidiu suspender as atividades poéticas.
Aprisionou os sonhos no concreto.

Reduziu a imaginação,
imergiu diretamente na realidade:
sem complacência, sem dó, nem piedade.

Viveu só o que viveu.
Afugentou tudo que não fosse de fato.
Jamais deu um passo maior do que as pernas.

Pra não dizer que a vida era assim tão seca,
se permitiu gostar de telenovela e futebol,
mas tudo dentro da devida proporção.

No dia em que morreu,
Foi enterrado no cemitério São João Batista
(em Botafogo),
em meio aos túmulos de cimento armado.

terça-feira, 2 de abril de 2013

INCOMPETÊNCIA


Incompetência
(Carlos Pedala)

Há certa fumaça
Essa chamusca as pálpebras
Queimando os olhos
Um a um
Os prédios antigos do Saara
Vão sendo consumidos pelo fogo
Tem-se a impressão de imprecisão
Como se isso fosse algo natural
O olhar incrédulo
e os carros de bombeiros
Estacionado em frente aos escombros
Jogando com a escada magirus água
demonstram a incompetência
que os ternos mais lindos
jamais serão capazes de
esconder...

segunda-feira, 1 de abril de 2013

SURPRESA MATINAL


Surpresa matinal
(Carlos Pedala)

Ao acordar mais tarde
percebeu que todos já haviam saído
A pia da cozinha estava limpa
e a mesa idem
Não havia leite
nem tinham feito o café
Não deixaram vestígios
Era como se a vida tivesse passado
e ninguém o tivesse esperado
A sensação de impotência,
de tristeza, emergiu
quando se deu conta
que nada poderia ser feito
nem havia com quem reclamar...