terça-feira, 13 de novembro de 2012

TROPA DO AFETO




Tropa do Afeto
(Carlos Pedala)

Vejo a sujeira do mundo
Sinto a nojeira de tudo
No Rio de Janeiro o sol é tão lindo
Da sacada do apartamento noto
Mendigos da marquise dormindo

Não obstante, a vida fluindo
Os automóveis passando
A chuva caindo
Os dias se indo
A polícia me olhando

A noite cumprida
As indagações acumuladas
As bicicletas paradas

Não obstante, vejo fotos
Da Tropa do Afeto atuando
E vejo crianças
sorrindo... 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

PARTIDA


Partida
(Carlos Pedala)

Navega essa sombra nas águas da baía
As rochas onde batem esse lamento
já tantos suportaram em tantos tempos
Do apito largado aos quatro ventos
Ressoando por todo o firmamento

As lágrimas tem o gosto da amargura
E de tristezas são as flores do agora
Como a angústia aqui se demora
Neste instante frio, seco e lento
há beleza no sorriso de indiferença

De quem outrora era o sol tão bonito
Mas as auroras virão com outros dias
Onde os senões serão por outras vias
E se os pedais hoje não dizem nada
Logo, andaremos de bicicletas ao infinito

BOCAS




Bocas
(Carlos Pedala) 

Existir tem tantas faces
Que o falar é um desfazer-se à toa
Leve, na Baía de Guanabara a gaivota voa
Batendo asa que em mim ecoa
Tais quais as nuvens cheias de preguiça

Em sintonia, ouço a sinfonia que nunca destoa
E os carros em seus ritmos constantes
Percebendo coisas que não percebia antes
Tal qual a voz que te abençoa

Naqueles beijos que nunca me destes
Sinto os anjos descidos do azul celeste
E as bicicletas já não dizem nada

Pois a única língua que não me é oca
É a fala das nossas línguas
em tua boca. 

domingo, 11 de novembro de 2012

PEDRAS


Pedras
(Carlos Pedala) a Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
Pulei com facilidade a primeira
Veio a segunda
Desviei dela
Na terceira, dei topada
Mas superei
Sempre haverá pedras no caminho
Sempre haverá quem as ultrapasse
E sempre alguém para delas falar
Embora isso tudo seja absurdo
as pedras, os caminhos, quem escreva sobre
e mais ainda quem leia
Por que existem as coisas e as pessoas?
Por que elas e não antes o nada?
E por que preferem automóveis às bicicletas?

SUSTENTABILIDADE


Sustentabilidade
(Carlos Pedala) A Carlos Drummond de Andrade

IPI reduzido (ruas inundadas de carros)
Nova hidrelétrica (estrelas apagadas por luzes)
Usina de Aço (atmosfera asfixiada por gases tóxicos)
Fabricas de tecidos (rios por corantes coloridos)
Conjunto habitacional (lagoa afogada por esgoto residencial)
Pré-Sal (mares de petróleo)

Eu, por minha vez, seguindo bons conselhos
Escovo os dentes com Colgate
Lavo as mãos com sabonete Lux
Enxaguo os cabelos com Neutrox

Dedetizo a casa com Fletis
Limpo o banheiro com Bombril
Lubrifico as bicicletas com aerossol
Revejo o filme Matrix
E marco encontro no Facebook contra o aquecimento global. 

sábado, 10 de novembro de 2012

O MUNDO DOS CARROS


O mundo dos carros
(Carlos Pedala)

O homem evoluiu, virou animal bípede
Inventou navios, trens, bicicletas etceteras

Mas não ficou satisfeito
Então, Ford engendrou a linha de montagem
E inventou: carro, carro, carro, carro...

Os russos faziam revolução socialista pra salvar o homem do homem. Os americanos faziam carro

Os chineses andavam de bicicletas e faziam alimentos para meio mundo, para matar a fome. Os americanos faziam carro

Os alemães, italianos e japoneses queriam conquistar o mundo, faziam guerras. Os americanos faziam carro.

Todos hoje fazem carro.

O carro venceu, inclusive, os americanos. Todo o mundo perdeu, inclusive, o mundo.

Não obstante, a evolução prossegue. Quem sabe um dia o homem não evoluiria e a ser bípede voltaria?


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

FORA DO TEMPO


Fora do Tempo
(Carlos Pedala)

Ainda estou por aqui
Fora do mergulho no desamparo
Onde nada fará diferença
Onde se apagam as crenças
Lá no lugar onde todas as lutas se igualam

Nem lágrimas
Nem dor
Nem instante
Tudo será como dantes
Do antigamente do antes
Como se olhar por trás daquilo
Que nunca se olhara
Não seria um desatino

Todas as bicicletas paradas
E nem mais, e nem mais Rio de Janeiro