domingo, 12 de agosto de 2012

DÚVIDAS E BICICLETAS





Dúvidas e bicicletas
(Carlos Pedala) Para meu pai

Acordo cedo, e me surpreendo com o pedaço
de lua sorrindo e duas estrelas. É noite ainda.
Ando devagar, procuro inexistir no silêncio.
A aurora é azul e rosa. Já a baía de Guanabara,
da janela, é espelho. Escovo os dentes, penso
em lavar o banheiro, está sujo.  Na internet, leio sobre medalhas de ouro. Vencer, sempre vencer.
No VT do jogo de vôlei, as meninas choram.
De fato, a conquista é momento mágico.
Hoje é domingo, mais um dia tranquilo.
Dizem que é dia dos pais, penso nele.
Por onde andará? Estou com uma fome.
As eleições se aproximam, vamos trabalhar.
Cortarei mais algumas palavras nesse poema
sem rimas, e onde colocarei as bicicletas? 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

DESTINO




Destino
(Carlos Pedala) A Caetano Veloso e Carlos Menezes.

Existir é destino
Há aqueles que vieram e a luz não viram
E há tantas coisas que são desatinos
E sobre tantas coisas não discutimos
Tal qual sua origem nordestina
Tal qual o nó contido na garganta

Existir é destino
Há aqueles que vieram e nada disseram
E há tantas coisas que desbaratinam
E sobre tantas coisas silenciamos
Tal qual para onde vamos
Tal qual a lágrima perdida

Tal qual aquele olhar indagando pelo sentido
Bem como o andar de bicicleta
Quando era tão pequenino 

SONO




Sono
(Carlos Pedala)

São 5:25hs da manhã, não escuto
galos, apenas o barulho dos carros
e dos seus pneus no asfalto. Tudo está
escuro. Do outro lado da baía, a praia
de Icaraí. E nas linhas curvas das montanhas
o dia se insinua. Logo, aurora.

Logo é dia.
A ciclovia está vazia.
É o silêncio urbano,
no fluir das águas nos canos.

Ouço a tosse no quarto vizinho.
E o zunir constante dos automóveis.
A realidade insiste em se meter nos planos.
Lá longe a pequena luz tremula.
É sempre bom dormir mais um pouco. 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

FLUIR




Fluir
(Carlos Pedala)

Fluo entre vias leves, vou e vejo
o voo das gaivotas, plainam paradas
sobre nós, entre sóis e nuvens.

Paro os pedais e o movimento vai
em paralelo aos verdes-azuis das
marés dos mares. A jatos metais

reluzem aos olhos dos mortais.
Bem lá dentro do céu deixam o rastro.
É o resto daquilo que fica para trás.

Na estátua de estanho, estranhos
fotografam em máquinas digitais.
Odes ao poeta jamais lido, jamais.

As correntes carregam e rodam as
rodas da bicicleta. O vento a favor
nos leva em velocidade constante. 

DE BICICLETA




De bicicleta
(Carlos Pedala)

Ando nas vias de bicicletas inteiro.
Vejo o sol refletindo nas janelas
dos grandes edifícios feitos espelhos.

As ondas quebrando nas areias,
o cheiro do mar na atmosfera.
Jovens e moças escolheram tal jeito.

Tal jeito de ser e de estar a brincar,
Jogam frescobol, praticam o surf.
O mundo feito para ser assim.

Também queria ser desse jeito
e peço que votem em mim. Prometo
o bem-viver procurar estender.

Pedalar por aí, não é tão difícil.
Porque não fazer do exercício
a ideia de socializar o bem-viver? 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

IPANEMA




Ipanema
(Carlos Pedala)

Assisto às Olimpíadas pela TV.
Vejo homens correndo atrás
da glória. O tempo é fracionado
em milésimos de segundo. Bem
repartido. No piscar de olhos,
o vencedor e o vencido.

As musas desfilam em microssaias,
roupas de marcas e panos coloridos.

Na manhã, os resultados passeiam
juntos comigo. Na ciclovia, destilando
os pensamentos, vou repassando os lugares.
Em Ipanema, bebo água no quiosque.
O vendedor diz morar na Rocinha.
Gostaria de vir trabalhar de bicicleta.
Ao lado, a outra questiona a falta de sentido.

sábado, 4 de agosto de 2012

AMESTERDÃ




Amesterdã
(Carlos Pedala)

O correio é fluxo constante,
desaguando feito rio de e-mails.
Muitos e muitos são mensagens
descartáveis, inúteis. Não leio.

Outros são de fato intrigantes.
Contam dos silêncios produzidos
pela ausência de automóveis em
cidade tão distante: Amesterdã

E a azáfama de adesão a lutas vans.
Do tempo e do vento persistentes,
nos sonhos da urbe cidadã.

Ao pedalar a bicicleta nos subúrbios
do Rio, ouço o mesmo som da falta
dos motores explosivos. Escuto a voz
dos calados, declamo poemas mudos.