domingo, 14 de outubro de 2012

DE BICICLETA




De bicicleta
(Carlos Pedala)

Andar de bicicleta, nada é mais simples
Nada de contar as letras ou silabas
Encontrado o equilíbrio, é seguir em frente
Ver os dias passando, perseguindo nuvens
A via é livre e o verso, branco

Respirar fundo a maresia de oxigênio
Perceber as cores do mundo (azul e verde)
No Rio de Janeiro, é o exercício perfeito
Transcorrer solto com o vento no peito

Deslizando pela Enseada de Botafogo
Tendo o Pão-de-Açucar como paisagem
É a brincadeira pra qualquer idade
Tal qual tirar fotos com Carlos Drummond de Andrade

Ter coragem para conceber um poema
No meio da ciclovia de Ipanema. 

sábado, 13 de outubro de 2012

HÁLITO




Hálito
(Carlos Pedala)

O fluir das bicicletas na ciclovia
De Copacabana
O bater das ondas nas areias
O perguntar por ti as estrelas
Indagando-as sobre o mistério das coisas

Houvesse sentido nos hóspedes do Hotel Windson
Ou o haver por havido
Houvesse apenas um segundo
Instante antes de tudo
Houvesse a pequena promessa

Bem antes de existir a Baía de Guanabara
Bem antes das nuvens sobre o Pão-de-açucar
Houvesse apenas uma nanonésima fração
Da possibilidade de significado
Ela estaria em teu hálito.  

CANTO DE CHUVA




Canto de chuva
(Carlos Pedala)

À noite, a chuva molha em segredo
Os logradouros e muda em silêncio o som,
Ou melhor, o barulho dos pneus dos carros.
Feito o poema de rimas toantes.

E a luz do dia, ela (a chuva) se esparrama.
Inundando os lados, as pessoas, as ciclovias.
Tal qual o lençol de seda a cobrir a cama,
Tal qual o desejo a possuir o corpo.

No Parque do Flamengo, vê-se a ausência
Dos frequentadores, nenhuma bicicleta
Passeando nas pistas, nenhum cachorro sem dono.

Mas um pássaro recita num canto seus versos:
Alegria, encanto ou lamento.
Não importa, qualquer canto é indiferente
Quando ninguém escuta.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

TEMPO NUBLADO




Tempo nublado
(Carlos Pedala)

O dia amanheceu encoberto
Há nuvens por todo lado
No topo do Pão-de-açucar
Em cima do Corcovado

Abro janelas, fecho os olhos
Tentando ver aonde andará você
Às vezes fico intrigado, às vezes sem querer ser
Nenhuma coisa é tão certa,
como a que acabei de dizer.

Circulo de bicicleta
Circulo em ciclovias desertas
Sem um quê nem um porquê
Os dias passando, passando em vão.
No Kazaquistão, em Londres
Ou na Rua do Ouvidor... 

LELÉ E OS PASSARINHOS




Lelé e os passarinho
(Carlos Pedala)

- Piu!

- Piuuu!

- Piuuuuuu!

No outro cômodo, a mãe pensa: Lelé acordou, está na hora do papá.

Lelé é ativa, agitada. Menina diferente. Inventa e reinventa histórias. Nasceu de um ovo de passarinho. Foi encontrada caída na calçada. Caiu do ninho.

Constituída da etérea matéria das nuvens, da esperança e da vontade de ver o opaco sorrir. Pedra fechada em si mesma. Merecia consideração.

Ela era assim, desde pequena. Mania de ficar calada. Imaginando, roendo pensamentos. Avoada.

Gostava de meditar torto, exercício de liberdade. Aprendendo livre ser livre. Não pretendia concertar o vazio do infinito. Dizia coisa sem sentido. Sem pé nem cabeça.

Há necessidade de treinar, exercitar: andar pra trás, ver no escuro, ir com o vento, falar pra dentro, sonhar acordado e cantar dormindo; toda assim, esquisita.

Lelé, acreditavam, era de veneta. Na verdade, aprendeu a falar imitando os passarinhos. Certo dia acordou fada. Voou e posou num galho de árvore. Contou histórias de amor pros amigos.

Encantados, os passarinhos a ouviam como se fosse chocolate derretido. Alimentavam-se das palavras. Gostavam dela através do diferente. Pegaram mania de pessoa. Passaram a viver sonhos.

Afoitos chegaram mais perto de Lelé. Extasiados com o hálito dela. Hipnotizados pela fada de palavras doces. Palavras tão doces que tornavam o amor palpável...

Fim.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

ENCANTO




Encanto
(Carlos Pedala)

Encanto-me ao atravessar as ruas de bicicleta
Enquanto a aurora cai sobre a Baía de Guanabara
E um vento leve sopra em nós
No céu cor de rosa, a Lua sorri em prata
A impossibilidade de dizê-la
De descrevê-la, de minuciá-la
Cala-me prolixo, eloquente mudo

Já os pássaros cantam esse momento
Enquanto os tons das cores se misturam
E a poesia imana
E a poesia é por ela e teima em sê-la
Enquanto no monumento tremula a bandeira

E enquanto escrevo, ouço os carros
Dentro dos minutos, dentro dos silêncios
Enquanto paro, enquanto espero, enquanto Rio de Janeiro

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

INSIGNIFICANTES


Insignificantes
(Carlos Pedala)

Implausível pouso da poesia
Outrora em folhas brancas
Hoje, em tela de bytes digitais
Da janela, vejo o voo das gaivotas
Sobre o Morro da Viúva, no Flamengo
Ou melhor, um flutuar leve feito Lua
Contraste com céu celeste
Por um segundo paro e admiro o azul
Sem nuvens, sem rimas...
Algumas das janelas se abrem e olham
Escuta-se silêncio dessas alturas
Enquanto nas ruas os automóveis movem
As ruas e seus pneumáticos em atrito com
O asfalto esfarelam as insignificantes
Coisas que nos deparam: como as bicicletas.